sábado, 11 de janeiro de 2014

Entre a sanidade e a fé

[Um Conto de Mago: A Ascensão, por Mauricio Canavarro]

OBS: Este conto foi baseado em eventos da Crônica "Tecnocracia no Rio de Janeiro". Saiba mais sobre a protagonista clicando aqui.

Vitória entrou na câmara escura cuja iluminação se resumia a um neon azul que circundava a parede e o símbolo da Nova Ordem Mundial que estava no chão. Ali sentado em cima e em uma posição de lótus estava seu Supervisor, o agente Magnus. Ele, um homem negro na casa dos setenta com uma barba grisalha vestindo um colante preto abriu os olhos e sorriu para sua visitante tão logo ela adentrou o lugar. Ela não esperava encontrá-lo daquele jeito e naquela posição. Ele parecia tão estranhamente... místico?

Símbolo da NOM
Símbolo da N.O.M.
Este encontro não era exatamente uma opção. Vitória estava praticamente sendo obrigada pelo Diretor do Constructo, o Doutrinador, a tratar assuntos particulares com Magnus, devido a interferência que eles estavam tendo em seu desempenho nas missões para a Tecnocracia. Ela estava cometendo erros e havia sido mais transparente sobre isso do que desejava. Agora tinha que pagar o preço.

A porta mecânica atrás dela se fechou selando a câmara.


— Sei que você ainda não conhecia este lugar, mas, por favor, fique à vontade – disse Magnus em um tom convidativo.

— O Doutrinador me pediu...

— Não se preocupe. Ele já falou comigo. Achei que seria melhor conversarmos aqui mesmo – explicou Magnus. – Temos muito que falar. Você vem adiando isso há muito tempo porque tem medo de se abrir. Medo do que possam pensar de você ou fazer com você caso não a compreendam.

Magnus estava certo. Vitória tinha medo. Mas quem não tinha? Vivendo daquele jeito? Naquela situação? Ele mesmo havia se oferecido para ajudá-la no que quer que fosse diversas vezes, mas Vitória sempre se recusava. Ela desconfiava de Magnus, por ele ser uma peça fundamental que era meio deslocada naquele universo novo de sua vida, afinal ele era mais questionador, humano e gentil que os outros e isso lhe parecia fachada, muito embora esse não fosse o único motivo.

Magnus olhou levemente para baixo:

— Vitória, você não conseguiu controlar a situação e agora está se sentindo forçada a se consultar comigo, mas as coisas não precisam ser assim. Deixe-me ajudá-la antes que alguém muito pior que eu tenha acesso ao seu foro íntimo.

Um pensamento a atravessou. De fato, era bem possível que se ela não se abrisse com ele, alguém designado pelo Doutrinador cuidaria de ser seu “psicanalista” e idéia a desagradava muito. Aquele homem lhe dava arrepios. Por outro lado, talvez Magnus a estivesse induzindo a esses pensamentos através de seu conhecimento notável da Esfera Mente. Ela tinha até suspeitas de que ele tivesse habilidades psíquicas. Mesmo assim, ela decidiu arriscar:

— Eu tenho estado com dores de cabeça fortes, só isso – disse Vitória meio que desviando o olhar.

Magnus olhou fixamente para a agente do Sindicato:

— Isso é o que você já tinha me dito, não é mesmo? Mas não é só isso que andou acontecendo com você. Eu fui informado de que você tem se aconselhado com um Brâmane sobre pesadelos estranhos envolvendo a divindade hindu Lakshmi.

— Você o quê? – Vitória fez uma expressão que misturava raiva e surpresa.

— Eles sabem quase tudo sobre você, Vitória. Não se esqueça de que foram eles que clonaram seus pais. Eles conhecem você desde pequena. Sabem perfeitamente de sua religiosidade. O problema não está na sua fé, mas na maneira como você pretende lidar com ela. Muitos agentes são pessoas movidas por um senso de dever divino e passam suas carreiras agindo com racionalidade. Na verdade existe uma crença extremamente falsa de que a religião e a ciência são adversárias em algum tipo de luta para decifrar o universo, enquanto de fato a religião contribuiu muito para o desenvolvimento da ciência ao longo da história. Um bom exemplo disso é geometria, que tem um valor tanto místico e divino quanto científico para os Maçons. Mas... assim eu vou me desviar do assunto... o que eu quero dizer é que você pode se abrir para mim sobre sua relação com sua religião e suas interpretações de sua vida. Sabe o que eu estava fazendo antes de você chegar? Meditando.

— Você medita? – perguntou Vitória.

— Como prática mental e física, sim. Normalmente eu ignoro a busca religiosa, pois não sou tão apegado a essas coisas. Através da respiração e relaxamento, a meditação me permite preencher o meu corpo com Energia Primordial tão logo eu me desfaço do estresse. Contudo, eu acredito que isso é o resultado de anos de treino e prática de controle e não algum tipo de aproximação espiritual.

Vitória permaneceu imóvel tentando processar aquilo tudo e se perguntando qual seria o próximo passo. Magnus fez uma pausa e depois continuou:

— Eu sei que você carrega um fardo do ponto de vista religioso, desde que você nasceu. Eu posso lhe oferecer outra interpretação para suas aflições que pode não ser de seu agrado ou sua escolha, mas que certamente lhe dará uma opção sobre o assunto e só isso pode ser suficiente para resolver seus problemas psicológicos. Mas eu preciso saber exatamente o que está havendo contigo. Sente-se aí no chão mesmo, por favor.

Vitória permaneceu hesitante, mas sentou-se e depois de um breve minuto começou a falar por uma necessidade:

— Esses pesadelos que eu ando tendo... bem... neles eu me vejo no espelho, mas no espelho eu sou Lakhsmi. Então ela grita para mim, o espelho se quebra e tudo fica confuso e abstrato. Não sei explicar.

— Hum, curioso. Talvez você seja Lakshmi – sorriu Magnus de um jeito irônico.

Vitória se sentiu um pouco constrangida. Magnus relevou e continuou:

— Você por acaso se sente como se o que estivesse fazendo não estivesse de acordo com o que o seu interior diz? – pergunta Magnus em um tom sério.

— É exatamente assim que eu me sinto – respondeu Vitória.

— Compreendo. Vitória, você deve entender que é muito comum que com o estresse, as pressões e, sobretudo com o contato com o fantástico que nós temos, nossa mente venha a desenvolver fantasias que nos ajudem a fugir de nossas responsabilidades e rotinas. Contudo através delas, podemos nos conhecer melhor e aprendermos como nos controlar. No fundo tudo se trata do que você realmente quer subconscientemente. E você já sabe o que você realmente quer?

Vitória pensou um pouco, agarrou o braço e fez um olhar discreto:

— Eu acho que não.

— Pois saiba que há um meio de nós descobrirmos. Podemos acessar o seu subconsciente através de seus sonhos.

— Você está sugerindo o quê? Entrar na minha mente?

— Entrar precisamente em um sonho seu. Sim, numa parte da sua mente. É possível, graças a Procedimentos específicos para isso.

— Não, obrigada Magnus. Eu prefiro não me expor desse jeito.

— Certo. Você venceu Vitória. Pode ir agora então. Eu não quero obrigá-la concordar com isso tudo. Você deve ser livre para seguir seu caminho, mas lembre-se, você deve questionar se é você quem está controlando sua vida ou se está deixando alguém traçar seu destino. Quando você se sentir pronta, eu estarei aqui para recebê-la.

Ela ficou intrigada, mas ao mesmo tempo aliviada de não ter que se submeter a nada sugerido:

— Agradeço a sua compreensão, Magnus – e se virou se retirando.

O tempo passou.

Vitória sentia uma voz interior falando com ela. A voz claramente dizia para ela deixar Magnus prosseguir com seu experimento. Ela sentia instintivamente que era a coisa certa a se fazer, que isso lhe traria respostas para suas aflições. Mas ao mesmo tempo ela temia por sua privacidade. Pela exposição que teria. De alguma forma ela estava “duplipensando” o assunto. As dores de cabeça e os pesadelos pioraram. Ela precisava tomar uma atitude.

Um dia procurou Magnus em sua câmara e disse:

— Eu estou pronta para deixar que você me ajude como guia em meus sonhos.

— Eu imaginei que você mudaria de idéia. O equipamento está aqui.

Minutos depois, ambos adormeceriam com eletrodos conectados as respectivas cabeças. Uma cortesia da Tecnocracia.

...

Sonho da Vitória

Vitória estava de pé sobre a mão de uma estátua imensa de Lakshmi. Ela olhou imediatamente o colosso a vista que tinha um bronze reluzente. Todo o resto em volta e abaixo dos pés da estátua eram nuvens alaranjadas, com o crepúsculo no horizonte acontecendo. Magnus estava bem ao lado dela sobre uma das moedas gigantes das quais a estátua parecia derramar. Ele estava vestindo um terno preto clássico, com seu chapéu panamá e olhava para o alto. Vitória ainda estava com seu paletó cinza, mas não se lembrava de como eles tinham chegado até ali.

— Magnus, onde estamos?!

— Estamos próximos do seu subconsciente – respondeu ele sem mover a cabeça. – Mas não estamos sozinhos. Eu sinto mais uma presença aqui.

— Quem? – perguntou Vitória.

Magnus começou a se mover, fazendo menção de subir a mão da estátua em direção ao braço:

— Eu tenho minhas suspeitas, mas é melhor nós subirmos logo isso para descobrir. Apenas mantenha o equilíbrio.

Vitória e Magnus começaram a subir, mas quando chegaram a articulação do braço, uma figura saiu de trás da sombra do cabelo da estátua. Era Vitória, mas estava vestindo trajes indianos femininos e tinha quatro braços. Os dois ficaram boquiabertos até que a figura se aproximasse do ombro da estrutura com uma expressão zangada. Ela falou:

— Ser de pedra tolo! Você achou que podia desviá-la do dharma. Que podia fazer dela seu brinquedinho. Mas eu planejei isso tudo. Eu permiti que você viesse aqui para que pudéssemos acertar as contas.

— Era o que eu temia Vitória. Sua mente se dividiu em duas. É exatamente isso que a palavra esquizofrenia significa. Dividir a mente em duas.

— Cale-se desgraçado! Você já a tirou de mim por tempo suficiente! Agora planeja me aprisionar. Mas você é realmente muito estúpido se pensa que pode me vencer aqui!

— Por hora eu estou aqui apenas para conversar – disse Magnus.

— Então DIGA LOGO o que quer – gritou a figura.

— Vitória é uma pessoa com suas próprias motivações e anseios. Não é simplesmente um corpo que você pode controlar para alcançar seus objetivos. Ela deve ser livre para traçar o próprio destino. Eu quero que você liberte a mente dela. Deixe-a em paz.

Houve um pequeno intervalo.

— Eu vou libertá-la, ser de pedra. Vou libertá-la... DE VOCÊ! – duas das mãos da figura se juntaram em um movimento com os braços para cima, enquanto as outras duas apontavam em direção a Magnus. Uma energia percorreu o corpo dela e uma rajada de luz dourada foi disparada, atingindo em cheio o Tecnocrata.

Magnus caiu escorregando de volta para a mão da estátua. Mas ele parecia bem apesar de tudo. Com um movimento rápido se pôs de pé. Não havia sangue.

— É hora de crescer, Vitória. Parar de achar que é uma deusa. Você é a agente Divisa do Sindicato, lembre-se de quem você realmente é – disse Magnus. E com um movimento de seu braço direito, uma rajada de força cinética atinge Lakshmi, derrubando-a em direção ao abismo.

Ao ver sua contraparte cair sobre as nuvens abaixo, Vitória gritou:

— NÃAAOOO!

Magnus permaneceu olhando para baixo por um tempo, até avistar Lakshmi retornando voando. Ela parou sua levitação o suficientemente alto para desferir uma nova rajada de energia pura sobre seu oponente. Mas desta vez Magnus gerou algum tipo de campo de força se protegendo.

— Eu posso aprisionar sua contraparte insana, Vitória. Mas eu preciso que você me ajude. Você precisa se concentrar!

Magnus fez um movimento com suas mãos. Uma Esfera de energia semi-transparente envolveu Lakshmi diminuindo e a contendo. No entanto foi desfeita, tão logo Lakshmi estendeu seus membros em direções simétricas para fora. Um rápido clarão eclodiu. Agora ela lançava um novo ataque a Magnus com mais energia que antes. Desta vez o Tecnocrata é atingido em cheio contra o chão. Sangue espirra para todo lado.

O fluxo de poder primordial se intensificou, rasgando os tecidos corporais de Magnus. Era mais poder do que ele conseguia aguentar. Ele olhou desesperado para Vitória.

— Ela está tentando me matar! Me ajude, Vitória. ME AJUDE!

No entanto ela permaneceu imóvel assistindo. Estava em choque e se sentia dividida. Suas memórias começaram a voltar. Ela se lembrava de uma noite. Uma noite de muitos tiros e muitas mortes. De uma sombra se aproximando enquanto ela agarrava seu bicho de pelúcia. Dele colocando suas mãos em volta de sua cabeça, rastreando seu poder.
Era Magnus. Teria ele assassinado seus pais? Que destino ela teria tido se tivesse permanecido naquela Capela dos Eutanatos a qual Magnus atacara? Por que ele contou a ela onde a encontrou? “Eles” realmente estavam desviando-a do dharma ou isso era apenas uma fantasia sua? Tantas perguntas.

— VITÓRIA... VOCÊ SABE QUE EU SEMPRE FUI QUESTIONADOR... COM A SUA AJUDA... PODEMOS DESCOBRIR. ME AJUDE! ME AJUDEEE, POR... FAVOR...

Vitória não conseguia levantar a mão contra Lakshmi e nem era capaz de entrar na frente.

— PARE! POR FAVOR! Você vai matá-lo! – pediu ela desesperada.

— Tola! ELE É O INIMIGO – respondeu Lakshmi.

Magnus agonizava. Ele murmurou algo incompreensível e poucos segundos depois eles estavam acordando na câmara escura. Depois vomitou um pouco de sangue. Extremamente abatido olhou para Vitória com desaprovação.

— Você me decepciona. Eu fiz tudo por você. Não faz idéia do preço alto que paguei, que ainda pago para mantê-la a salvo.

— Magnus... você...

— SUMA DAQUI! – gritou ele com raiva.

— O que você vai dizer para os outros?

— A verdade. Que não posso ajudá-la. Que não tenho como ajudá-la. Você guarda muitas dúvidas e ressentimentos. E ainda por cima desconfia de todos. Em parte, você é como eu. Mas pode vir a perceber isso tarde demais.

FIM

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