sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma noite de poker sem amigos

[Um Conto de Mago: A Ascensão, por Igor Feijó, revisado por Mauricio Canavarro]

   Antes de você ler isto, gostaria de deixar claro que sou inocente e não tive nada a ver com aquilo que aconteceu na casa do Porlone.

   Era um sábado desses em que o tédio reinava em minha rotina. Mesmo estando em Las Vegas, sem grana significa sem diversão. Até que, fiquei sabendo de um joguinho que ia acontecer na casa de Antônio Porlone, um sujeito de massa corporal avantajada que controlava um lance de metafetamina na cidade. Não sei quem seriam os outros jogadores, mas eu não estava me importando com isso. Cem mil por cabeça, não é todo dia que se vê uma aposta dessas, pra eles devia ser apenas mais um passa tempo, pra mim era o que eu precisava pra resolver uns assuntos. Fiz alguns contatos, e por falar com as pessoas certas, conseguir entrar. Deviam ter achado que seria um dinheiro fácil de mais um otário qualquer, mas todos sempre me subestimam.

   Peguei meu kit, revisei se estava tudo lá, retirei minha arma de dentro da maleta, pois sabia que iriam revista-la. Tomei um bom banho, coloquei meu melhor terno por cima de uma blusa cara qualquer e saí. Ao entrar no carro coloquei o endereço no GPS e percebi que se encontrava no bairro mais caro de Las Vegas; Porlone era um cara que gostava de ostentar.

   Chegando ao local eu subi uma encosta e de longe já dava pra ver a casa. Cara, devia custar alguns milhões fácil. A casa era grande e quadrada, mesclava suas paredes brancas com janelas imensas de vidro. A princípio Porlone não era muito de privacidade porque dava pra ver claramente sua rotina diária através dos vidros transparentes. Se bem que, naquela altura quem iria lá pra fazer alguma coisa? Fiquei sabendo que ele apagou alguns Paparazzi por bem menos. Um imenso portão magnético se abriu quando me aproximei com o carro, havia dois seguranças próximos da entrada e estavam bem armados. O suficiente pra você com uma câmera dar meia volta e nunca mais voltar.

   Cumprimentei as estátuas de terno, mas não esboçaram nenhuma reação. Estacionei em frente à casa e um chofer o levou para guarda-lo em seu local devido. Um mordomo parado na porta já recebia os convidados com uma dose de Uísque, só por esse começo eu já gostei. Dei o meu melhor sorriso, não o recebi de volta claramente, peguei meu copo e continuei andando admirando a estrutura da casa. Por dentro parecia um museu, muitas peças raras espelhadas de modo estratégico, era como se estivessem em exposição. O local era muito arejado, algumas portas de vidro ficavam entre abertas e a corrente de ar circulava por toda a casa. Olhei para a direita e vi uma bela jovem tomando banho de piscina, quando digo bela quero dizer, gostosa. Talvez eu pudesse sair daqui com o dinheiro e essa gata de brinde, será que é querer de mais? Eu ri do meu próprio pensamento e quando voltei minha atenção, tinha chegado à mesa dos rapazes.

Retrato dos jogadores


   Se você não conhece os nomes, não conhece a reputação, o tanto faz vem logo em sua mente, mas eu conhecia aqueles caras. Emílio Rosales um magrelo com cabelo emplastrado de gel, que comandava um lance de lavagem de dinheiro pesado. Lorenzo Coratore um mal encarado viciado em exercícios físicos, era um dos melhores cafetões da cidade. Giancarlo Breganholi um mauricinho bem vestido metido em alguns lances obscuros. Estavam todos ali menos o dono da casa, o que me indicava que o jogo não iria ser fácil e que algo estava muito estranho. Não é porque os caras eram da barra pesada, mas é pela pressão que o jogo e esse tipo de ambiente faz com a sua cabeça. E com essa surpresinha, a pressão aumentou consideravelmente.

   Assim que os caras me viram virei uma espécie de alvo, senti os olhares frios e maliciosos, era como se eu já estivesse perdendo dinheiro só de entrar ali. A verdade é que eu tinha nem cem dólares, quanto mais cem mil. Mas, o blefe faz parte da minha vida assim como o álcool faz parte do alcoólatra. Emílio me deu um sorriso e apontou para a cadeira vazia.

   — Sente meu jovem, iremos começar o quanto antes – falou com sua voz gordurosa.

   Lorenzo parecia uma chaminé com seu charuto, o sujeito mais mascava o troço do que fumava. Me lançou um olhar divertido e falou.

   — E ai Mackenzie, como vão as coisas pro lado de lá?

   Parte de mim sabia que ele estava me zombando ou querendo curtir com a minha cara, mas eu me fiz de bobo e respondi.

   — Ah, tudo na mesma. Tenho feito alguns jogos, ganhado uma graninha. Nada muito grande, tenho minhas economias.

   — Espero que não fique sem elas hoje – riu tão alto quanto sua voz rouca permitiu.

   Emílio ia montando a mesa conforme eu era instrumento de diversão para aqueles caras. Quando acabou todos se silenciaram e os movimentos começaram. Já tinha se passado um bocado de hora quando percebi que estava no meio do caminho, meu jogo não era nem tão bom para ganhar, quanto tão ruim para perder. Na melhor das hipóteses eu ficaria em segundo, mas não é assim que se ganha. Minha moeda da sorte passeava entre meus dedos na esperança de me dar alguma resposta, ou uma carta boa. Quando fiz a troca minha mão veio perfeita, minha preciosa moeda havia feito seu trabalho. Percebi com o canto do olho os rostos pálidos e suarentos dos caras, sabiam que estavam perdidos, mas não queriam admitir.

   Dei meu melhor sorriso e abaixei minha mão.

Royal Straight flush

   — Bem rapazes, acho que um Royal Straight flush define nossa noite.

   Vi a raiva transparecer no rosto de cada um, Lorenzo comeu parte de seu charuto, Emílio enxugou a testa com um paninho branco e Giancarlo estava vermelho, bufando como um touro. Todos abaixaram suas mãos e os jogos eram péssimos, não sei com o que eu estava preocupado. Mas, em um segundo movimento sacaram armas e apontaram em minha direção, eram revólveres pesados e cromados, estilizados por cada um a seu gosto. Levantei minhas mãos em sinal de paz.

   — Ei, ganhei honestamente aqui cara – menti.

   — Eu acho que daria pra dividir cem por três, o que vocês acham? – perguntou Emílio aos rapazes. Todos fizeram que sim com a cabeça e engatilharam as armas.

   — Peraí! Antes de eu morrer quero tentar minha sorte. Posso?

   Ninguém fez objeção alguma. Lancei minha moeda para o alto e falei.

   — Cara vocês ganham. Coroa algo muito ruim acontece se não me deixarem ir embora.

   A moeda girou três vezes antes de cair nas costas da minha mão. Tapei ela com a outra e quando mostrei tinha dado coroa, é claro. Todos caíram na gargalhada e então Emílio falou.

   — Você é um comediante, fazendo piada até na hora da morte. Obrigado pelo jogo de hoje garoto, foi muito proveitoso – sorriu.

   Nesse momento todos apertaram o gatilho, mas algo que não estava nos planos deles aconteceu, todos os tiros saíram pela culatra e automaticamente todos perderam a mão. Antes que pudessem continuar gritando eu saquei minha arma. Embora não tivesse silenciador, nenhum barulho pode ser escutado quando disparei meus tiros, um para cada cabeça. Calculei mais ou menos o tempo que tinha até os seguranças chegarem, peguei o dinheiro e saí pelos fundos. Estava sem meu carro então corri loucamente, não tinha problema nenhum deixar o carro lá, não era meu mesmo. Enquanto corria pela minha vida percebi que tinha uma vegetação alta descendo a ladeira, me joguei lá sem pensar e fui rastejando pra longe.

   Parei alguns segundos para tentar escutar e vi quando dois carros pretos cruzaram a estrada em alta velocidade. Levantei e fiquei acocorado na mata, quando senti que o perigo havia passado levantei. Dei uma espiada e respirei fundo, era hora de sair de Las Vegas.

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